Como os ombros começam a pesar, enviei-te a alma pelo correio na esperança de que nunca se perdesse durante a viagem. Embalada pelo vento, respiro mais vezes do que preciso, sou-te mais do que precisas. Guardo as vontades em caixas de Inverno sem misturas de climas, meus climas. Temperada e envinagrada azedei-me involuntariamente sem reparar nos rios que correm cá dentro. Distraída e sem insatisfação, já que uma coisa previne a outra. Trago a mala cheia... e ela diz tanto de mim. Denunciei-me com o meu mau olhar por tão transparentes serem os meus olhos. Guardo assim as etiquetas dos teus sonhos para as queimar em conjunto com os livros do Verão: adeus fumos, para que vos quero?
fala coração
15.5.12
1.5.12
Precisas de menos do que tens, mas queres mais do que precisas. Os olhos pesam-te pelo cansaço, dás cabeçadas pelas portas e queres fugir. Pensas que tens liberdade para isso... Não tens. Nunca tiveste. Vives em prisões de espíritos, com sensações fora de contexto. Ainda excluis as incompreensões. Queres acompanhamento mas afastas quem queres que te acompanhe. Viver na insatisfação é para os fracos. Não perceber que ela existe é para mim.
25.4.12
5.4.12
Queremos ir a todo o lado sem passar por lado nenhum, confiantes na ideia de que mesmo sem se saber o sitio de partida chegamos ao destino certo. Ensinem-me então a partir de sitio nenhum com recepção garantida no lado de lá. Cortes nas linhas atrapalham as vidas. As nossas. Por divisões repentinas e desvios sem avisos. Sonham alto, dizem eles. E eu vejo tantos pés no chão. Nem para andar têm licença. Os pés cansados cortam confianças com os caminhos. E tu caminhas sobre os tempos. Não os tenho. É pelo cheiro a terra molhada que me guio nas estações. O sol perdeu-se de mim e a lua preferiu embalar-se com outra pessoa. O descontrolo avisou-me: não deixes o medo consumir-te.
2.4.12
Esqueço o tempo e o espaço, tudo o que me possa localizar. Peço menos controlo e usufruo de tudo o que devo usufruir, sem limites nem barreiras por dissolver. Os ventos pedem-me mais ar e eu sempre a conter respirações... nada chega para nada, nem tudo para o tempo. Correria e acidente de mãos dadas nos passeios em frente à minha casa. O espaço. Sempre em olhar discreto, ansiando pelo deslize dos pés fracos que tenho. No espaço. A contar os segundos antes e depois da queda, durante o desequilíbrio dos fracos. No tempo. Descolo-mo deles.
31.3.12

Beliscamos os olhos como quem brinca com a vida numa de acabar com o equilíbrio das pálpebras. Elas juntam-se vezes demais quando o coração acelera. Esquece-se dos nomes e das compras nas manhãs de sábado. Deixamos as palavras na gaveta mais longe da que guarda os dedos dos pés. Perdemos o movimento e aquilo que nos difere de todos os outros animais. Aprende-se a baixar a cabeça, a não dizer tudo e a dormir. A dormir sem memorizar o sono, sem hipóteses para o nosso amigo sonho. Guardam-se os sapatos de verão e opta-se pelo abandono da fruta verde. As decisões deixam de ser tomadas e até as séries semanais passam a ser mais importantes que o sossego de alma. Esquecemos as respostas e dormimos. Dormimos para a vida e para todos. Memoriza e despede-te.
10.3.12
Não chegam os apetites de mil dias nem as manhãs com despertar de saudades. Os terramotos de espírito e peles enrugadas por excesso de dissabores fazem o cérebro explodir e o corpo morrer, sempre pedindo mais realismo e percepção do real. Voltam a abrir-se as gavetinhas do passado para realçar o bom e mau do nosso coração e mais tarde voltamos a sentir-nos extremamente alto embora estejamos incrivelmente perto. Invertemos as vidas por umas horas e partimos as esferas de vidro que nos separavam. Esquecemo-nos sempre de que a distância é a nossa melhor amiga. Foram escolhas que nos foderam, agora são vidas separadas.
6.3.12
Sinto-as por todo o lado. Duas e três vezes. Sem contar com todas as outras. E respiro. Aliviou. Só contracções do corpo passageiras. E conto. Depois do oito é mais devagar. Por ser redondo e forte como o nó interior. É equilíbrio que me falta. Pés pequenos também trazem transtorno. Ocupam pouco espaço. E eu acompanho. Fazem-me acompanhar esta limitação renhida entre mim e elas. Mas elas estão em todo o lado. São tão fortes. Têm tanto espaço.
4.3.12
25.2.12
Guardamos os sonhos dentro de garrafas de vidro para mais tarde as lançarmos ao rio. Esperamos que um dia alguém as encontre e que, como por milagre, todos os sonhos se realizem. Por ordem decrescente, surge o sonho de um dia sermos fortes, sem enlouquecer, com felicidade. Porque ainda acreditamos que a eloquência, o bem falar e a dureza da alma são comuns nos dias de hoje. Parece que nos engolimos. Sabemos que a felicidade só existe quando partilhada e, por isso, os ainda não loucos abrem os braços em sinal de boa recepção a seja o que for que aí venha, enquanto os loucos se cruzam sobre si. Ambos esperam sentir-se fortes. E felizes. Mesmo sem o serem. Ou são sem o sentir? Quem não se sente é louco. Nos quartos onde não existem loucos todos se sentem fortes, sem o ser. Nós continuamos a acreditar na normalidade como uma ausência de loucura e esquecemo-nos que nos dias de hoje é preferível questionar-nos como ainda é possível tão grande sanidade em corpos pequenos que se sentem vulneráveis e são feitos de ferro.
23.2.12
18.2.12
Depois de um início de noite cheio de explosões do interior, vamos escrevendo pelo mundo, nas nossas ruas da miséria penduradas de porta em porta quase como em buscar de mais família. Sentadas e sentidas pelas diferenças visuais, doem-nos as pálpebras pelo negro da Vinícola em contraste com o brilho ilusório do Bot'Abaixo. Sobem-nos os enjoos depois de vermos tantas maquilhagens perfeitas à nossa volta e, a rotina grita bem-vindos. Os degraus dos primos estendem-se ás nossas pernas e aconchegam-nos nos cantos livres de máscaras. Desfazem-se os pós do céu, rolam-se os papéis da alma e esfrega-se uma pedra contra outra: caem os medos pelo chão. Perdem-se assim os sentidos excepto o de humor. E criamos personagens, criamos futuros e esquecemos os cinco minutos que passaram há cinco minutos. Enumeramos leis aos círculos numa de nunca nos desviarmos do que é suposto seguir. Não sair do espaço, do nosso espaço privado do universo, aquele cheio de riscos descontínuos e pressões de água desconfortáveis para a nossa boca. Percebemos desde o inicio da viagem ao profundo prazer da vida que todos preferimos que passe sem criar buracos na língua, sem tempestades para a nossa comunicação, tal como nos balneários da escola que fazemos vida. Repetimos porque sabemos de cor o sabor agradável dos fumos favoráveis à limpeza de espírito e sabemos fazer diferente do mundo, sem arrasos à mente. Terminamos a busca de família em encontros de vidas passadas com corpos pendurados nos nossos a agradecer a ajuda em mais uma noite de desgraça.
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